Quinta-feira, 4 de Outubro de 2007

AUSCHWITZ, UM SÍMBOLO

A Birmânia saltou para as nossas casas à custa de morte e dor.

O Darfur está na comunicação social pelo sofrimento e pela angústia.

Mas que sabemos nós dos massacres sofridos pela Chéchénia?

Quem nos conta o horror do quotidiano no Iraque, no Líbano, na Palestina, no Afeganistão?

Quanta injustiça, quanta perseguição se abate sobre milhares de seres humanos , de que nós nem suspeitamos sequer?

Eis o motivo de aqui partilhar convosco o testemunho por mim publicado no "Outra Banda" , em Julho de 2003, após a minha visita ao mais tristemente célebre campo de concentração nazi.

O texto simboliza todo o meu apreço por todas as vítimas de todos os tempos.

                                

                                   AUSCHWITZ

" Não o anuncieis em Geth,

   não derrameis lágrimas...

    Na casa do pó, cobri-vos também de pó!"

                                                                       Miqueias

O que vos escrevo hoje é um grito de horror e espanto. Porque pura e simplesmente não existem palavras com poder ou capacidade para transmitir, ao de leve que seja, aquilo que se sente ao transpor os portões do campo de morte nazi de Auschwitz, nome alemão de Oswiecim, Polónia, e ao ficarmos no interior daquele imenso espaço delimitado por uma dupla vedação electrificada  de arame farpado.

O "slogan" , sobre a entrada de todos os campos de concentração, "Arbeit Macht Frei"("O Trabalho Liberta") gela pelo cinismo. Nessa zona tocava a orquestra utilizada por Hitler para fins de propaganda face à comunidade internacional.

A terminologia SS designava esta fábrica de morte como Konzentrationslager Auschwitz. No entanto, ela é composta por dois campos de concentração : Auschwitz, propriamente dito, e Birkenau, a uma distância de três quilómetros.

Este último, designado também como "o campo novo" , foi construído por prisioneiros para prisioneiros, e a zona feminina é separada da masculina pelo famoso ramal de caminho de ferro, em cujo cais de desembarque - conhecido por "A Rampa" - Mengele( "O Anjo da Morte") decidia da morte imediata ou da ida para o trabalho escravo dos "materiais humanos".

A razão da sua construção prende-se com a impossibilidade de em Auschwitz se gasearem e cremarem os milhares de pessoas chegando a um ritmo elevadíssimo.Apesar da sua vastidão, ficou "sómente" a meio.

Neste complexo industrial de pavor e morte, foram assassinadas a sangue-frio, entre 1940 e 1945, mais de um milhão de vítimas - cobrindo,só por exemplo,  polacos, soviéticos, ciganos e judeus. Sendo a intenção hitleriana varrer do cimo da Terra tanto ciganos como judeus.

Jamais saberemos o número real, pois os alemães não se deram ao trabalho de registar as pessoas que passaram directamente dos vagões de transporte de animais para as câmaras de gás.

Tornou-se, assim, a maior vala comum do mundo e o mais conhecido lugar histórico de genocídio.

Em homenagem às vítimas, o Parlamento polaco decidiu , em 1947, preservar a área e fundar um Museu Estatal, constituído actualmente por 200 hectares de terreno, 150 edifícios e ruínas de outros 300 (destruídos pelos responsáveis nazis quando se aperceberam da derrota inevitável e souberam da aproximação do Exército Vermelho), além das várias colecções de objectos das vítimas, documentos, fotografias, testemunhos escritos, latas vazias de Zycclon B (produto tóxico utilizado para a Solução Final do Problema Judaico, ou seja, o extermínio programado e definitivo do povo judeu).

Disse-vos tudo isto, mas tudo isto é mera informação: não vos passa rigorosamente nada de uma experiência de vida impossível de esquecer e que nos provoca uma profunda mescla de emoções e sentimentos.

O poder simbólico de Auchswitz-Birkenau é tremendo, e o facto de se ter estado ali - onde a insanidade e a ferocidade do animal humano nos afundaram a todos nós no mais negro dos abismos - marca-nos tão indelevelmente a alma como os nazis alemães marcaram o corpo das sua vítimas.

Nada nos protege para este mergulho na prova provada de um período dominado por entidades profundamente malignas, que corresponderam ao subconsciente profundo de um sociedade desequilibrada, pois - já alguém o disse - tudo passa pela pessoa e respectivo contexto!

Aliás, a cruz de Shiva, no seu destruidor movimento para a esquerda, tomada como símbolo do nazismo, não permite ilusões nem enganos!

Nenhum livro, nenhum filme, nenhum documentário - nem sequer testemunhos de quem sobreviveu àquela descida a todos os infernos reais e imaginados - nos prepara para o perturbante choque de percorrermos o temido "Bloco 11" - jurisdição da Gestapo, com um muro especialmente preparado para fuzilamentos - e descermos às suas sombrias celas destinadas a torturas específicas; muito menos, para entrarmos por sobre solo propositadamente desnivelado nas câmaras de gás e vermos por cima das nossas cabeças as falsas saídas de água ou tocarmos com as nossas próprias mãos os fornos onde centenas e centenas de vítimas de todas as nacionalidades e idades foram queimadas - algumas ainda em vida!!

Primo Levi, sobrevivente deste campo de assassínio em massa, deu testemunho em "Se isto é um homem", donde retirei o seguinte excerto: " Em Birkenau, a chaminé do Forno Crematório fumega há dez dias. Estão a arranjar lugar para um enorme transporte que está a chegar do gueto de Posen... Destruir o homem é difícil, quase tanto como criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os Alemães conseguiram-no : da nossa parte nada mais têm a recear".

Ciente deste sofrimento além dos limites, uma insolúvel perplexidade me angustiou durante toda a visita : como pode o povo judeu - após ter sido vítima de tal violência e de ter sofrido perseguições durante séculos - portar-se da maneira terrível como se porta com os palestinianos, esmagando-os e aos seus direitos?!

Falei, melhor dizendo, tentei falar do indizível, da comoção que nos deixa sem voz e nos afoga em lágrimas face aos olhos que , das fotografias, nos olham e aos testemunhos simultâneamente comoventes e chocantes de uma tragédia sem nome nem tamanho, cujo peso se abate para sempre sobre a Humanidade inteira.

Espero em Deus ter conseguido, através daquilo a que a Ordem do Templo chamava "confissão negativa" deixar aqui um alerta, para que se não repita de nenhum modo ( o Mal usa muitas máscaras, como sabemos)" a experiência de quem viveu

dias em que o homem foi uma coisa aos olhos do homem.".

Termino com a palavra de esperança e confiança de dois sobreviventes - uma francesa e um polaco - do pesadelo dos campos de concentração nazis ( é bom relembrar a existência, por exemplo, de Dachau, Treblinka, Buchenwald, Leipzig) :

"Apesar de tudo, devemos alegrar-nos, pois a vitória é nossa e eles é que, com toda a sua força e com todo o seu horror, sofreram uma derrota sem retorno!"

             Françoise  Gautier

"Devemos seguir a Lei de Talião, olho por olho e dente por dente? É necessário isso? Devemos fazer a outros o que nos fizeram? Os Tribunais aí estão para julgar!"

                          Tadeusz  Sobolewicz

Deus nos ilumine conforme as nossas necessidades e responsabilidades!

Bom fim-de-semana prolongado e obrigada pela companhia!

sinto-me: DESCONSOLADA
música/livro: "HE SOBREVIVIDO AL INFIERNO" - TADEUSZ SOBOLEWICZ
publicado por São Banza às 16:22
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18 comentários:
De APÁTRIDA a 4 de Outubro de 2007 às 19:31
As grandes potencias, especialmente os USA controlan as axencias de noticias que seleccionan en función dos seus interese a información que circula polo mundo. por iso soio coñecemos os conflictos, as masacres que nos ensinan para xustificar futuras agresions. Así os conflictos aparecen é desaparecen de súpeto, mentras millons de persoas sofren a inxusticia e morren de dor, de fame, na espera da xusticia social e do reparto xusto da riqueza.
Unha aperta


De São Banza a 4 de Outubro de 2007 às 19:53
Muito gosto!
Pois, é como diz...e nós podemos fazer muito pouco.
Mas, pelo menos, lutemos!
Gostarei sempre da sua presença!


De elvira a 4 de Outubro de 2007 às 20:13
São, eu sou sempre sincera. Ás vezes posso calar uma opinião por receio de não me saber expressar.
Porém se escrevo escrevo o que sinto. E o que sinto neste momento é o mesmo que sinto sempre que vejo ou leio coisas, sobre o holocausto. Um misto de revolta e vergonha. Vergonha de pertencer a uma raça capaz das maiores atrocidades. Capaz de destruir o seu próximo, o seu irmão. Desculpe não ir mais longe no comentário, mas tenho dificuldade em exprimir a minha revolta.
Um abraço


De São Banza a 4 de Outubro de 2007 às 20:20
Minha linda, não se ofenda...que, longe de mim essa intenção. Parece que não me fiz perceber, mas enfim..
Abraços.


De elvira a 4 de Outubro de 2007 às 21:32
Também parece que não me fiz entender. Eu não me ofendi, apenas fiz um esclarecimento. Ás vezes certos temas não comento precisamente por isso.
Quanto ao tema deixei a minha opinião. Quanto á forma como está escrito, como posso eu comentar? Falta-me engenho e arte para tal, a São sabe que o meu nível escolar não existe. E depois uma viagem a um sítio destes, mexe tanto com os sentimenos de cada um... que seria quase impossível que duas pessoas a escrever sobre o mesmo tema n~~ao o sentissem de forma diferente. Eu por exemplo penso que não teria coragem para entrar nesse palco de horrores.
Um abraço


De São Banza a 4 de Outubro de 2007 às 22:51
Para mim, acabou penso que para si, igual.
Venha sempre.
Abraço grande.


De Oscar Luiz a 4 de Outubro de 2007 às 23:59
Querida,

Passando correndo dessa vez, mas para avisá-la que daqui há dois dias (sábado) será o primeiro aniversário do By Osc@r Luiz e vou fazer uma homenagem aos amigos. Mesmo não tendo nenhuma imagem sua para compor, você vai fazer parte dela, então, se tiver dois minutinhos, passa lá em casa no sábado, tá?
Beijo!
Obrigado por me visitar sempre!


De São Banza a 5 de Outubro de 2007 às 13:22
Grata que estou.
Você é um doce mesmo!
Kisses!


De Gustavo Chaves a 5 de Outubro de 2007 às 14:10
É triste, muito triste, e nó sempre nos calamos!


De São Banza a 5 de Outubro de 2007 às 14:35
Bem vindo!
Calar, não nos calamos...por vezes falamoa é baixo, não?
Saudações!


De ManDrag yThén a 5 de Outubro de 2007 às 15:52
Ninguém se cala com o holocausto dos 6 milhões de judeus pelo regime nazi alemão, mas todos ignoram os, pelo menos, pois ao certo nunca se conseguirá ter uma contagem precisa por falta de recenssiamentos, 10 milhões de meus irmãos africanos sob o jugo despótico de Leopoldo II da Bélgica, que os entendia como mera propriedade sua.
Salutas!


De São Banza a 5 de Outubro de 2007 às 16:20
A crítica não é para mim, decerto, que fiz questão de deixar bem clara a decisão de Hitler extinguir o povo cigano.
Quanto ao drama de África , comentei em ourocru "O Coração das Trevas", de Joseph Conrad, onde denuncia a barbaridade dos interesses coloniais - referindo eu os neo - colonialismos como o da China.
Se falamos em massacres e genocídios - embora respeitando o teu sentimento africano - não devemos esquecer os intra - étnicos como os de
Biafra e , mais recentemente, Ruanda.
E podemos ir ainda mais loge ao ter presente a quase total extinção dos índios norte-americanos e as degradantes condições em que ainda hoje se encontram!
Infelizmente, ninguém tem o exclusivo da dor e do sofrimento.
Bom fim de semana prolongado.





De Lucas Parente a 5 de Outubro de 2007 às 19:10
Olá, cara amiga.

Venho agradecer as suas constantes visitas e comentários no teatrodelobos. E também retribuir conhecendo o seu espaço. Você mora em Portugal, é isso mesmo? Uma das coisas que me incomodam nesse universo dos Blogs é que sempre conhecemos as pessoas de forma meio oblíqua, sem saber ao certo quem são. Olha aí, quem Sao, rsrsrs. De qualquer forma, parabéns pelo ótimo posto, relembrando que nossa limitada visão é incapaz de dar conta de todas as atrocidades pelo mundo afora. Ah, meu Deus, como é cruel e verdadeiro o ensinamento de Schopenhauer em Dores do Mundo...

Abraços.


De São Banza a 6 de Outubro de 2007 às 09:47

Muito grata pela visita e, mais ainda , pela generosidade das palavras.
Sim, sou portuguesa, vivo em Portugal.
Concordo na totalidade consigo, pois às tantas ninguém sabe quem é quem: imagine que até já deu para um catalão, cujo blog me agrada muito e porque ele escreve e entende português(!!!!!), pensar que eu era um rapaz...
Só não entendi essa da foto, porque eu não tenho...
Será sempre bem-vindo.
Bem haja!


De Lucas Parente a 5 de Outubro de 2007 às 19:15
Se bem que o seu perfil tem até foto. Coisa rara.

Abraço.


De São Banza a 6 de Outubro de 2007 às 09:49
Foto?!
Não se enganou na pessoa?
Venha sempre!


De Lucas Parente a 7 de Outubro de 2007 às 18:32
Acho q me enganei sim.
É a foto de alguém aí na parte do perfil do seu blog, rsrsrsrs; foi mal.

Moro na cidade de Mundo Novo, Bahia, Brasil.
Ainda não saí do meu país, mas gosto de viajar.
As paisagens do Velho Mundo parecem bastante interessantes.

Abraços.


De São Banza a 8 de Outubro de 2007 às 00:29
Ói!
Eu também gosto muitíssimo de viajar, nestes últimos anos o tenho feito muito. Já estive no Noredeste brasileiro, que é lindo mesmo!
A Europa tem paisagens bem bonitas, mas tem também um património construído incrível.
Boa semana!


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