Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

PARA ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

Há vinte e cinco anos que partiste na viagem sem regresso. Tinhas tão-só quarenta anos, mas ninguém morre cedo ou tarde de mais, segundo aquilo que creio.

Venho dar-te novas desta margem ...e não são as melhores, perdoa-me.

A RTP começa hoje a transmitir "A Guerra", série documental levada a efeito pelo jornalista Joaquim Furtado sobre a guerra colonial que durante treze longos e duros anos devastou a sociedade portuguesa, além de levar repressão e morte às então ditas províncias ultramarinas.

E acreditas que, hoje e na mesma RTP, para minha perplexidade e espanto, um furioso e saudosista ( melhor, fascista e imperialista!!) tenente - coronel Brandão Ferreira levantou bem alto a voz  em defesa dos pretensos direitos portugueses sobre os agora PALOP e da guerra para os manter?!

Como é possível existirem ainda pessoas cristalizadas no passado, sem entenderem rigorosamente nada do seu tempo nem do contexto onde se movem?!

Ainda dói mais - como facadas na alma!!- ouvir uma juventude completamente alienada considerar necessário um novo Salazar!!

Sim, eu sei a responsabilidade é nossa, isto é, da minha geração : já o reconheci publicamente várias vezes.

Logo após a gloriosa madrugada de 25 de Abril 1974, embandeirámos em arco e pensámos que a Democracia estava fialmente ganha e que a História acabara.

Bem cara e dolorosa, nos tem saído a ilusão...

A geração que se encontra agora entre os cinquenta anos e a morte foi uma geração de transição, de luta, de valores...e tem assistido ao longo de anos ao desabar de tudo quanto idealizou e construiu.

Fico por aqui: não quero acrescentar mais amargura e tristeza às que , eu sei, levaste na bagagem do fim.

Mas há, felizmente , uma óptima notícia : vozes de cantores de hoje uniram-se num disco(com DVD) em tua homenagem e memória!

Escrevo-te ao som da voz única de José Afonso, teu companheiro de tudo.

Em vossa memória e homenagem e também por respeito a todas as vítimas da vergonhosa guerra colonial a que só o Movimento dos Capitâes de Abril pôs termo, deixo aqui "Menina dos Olhos Tristes", poema do poeta moçambicano Reinaldo Ferreira, musicado por José Afonso e cantado por ti.

                MENINA DOS OLHOS TRISTES

Menina dos olhos tristes,

O que tanto a faz chorar?

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar...

Senhora dos olhos cansados,

Porque a fatiga o tear?

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar...

Vamos, senhor pensativo,

Olhe o cachimbo a apagar.

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar...

Anda bem triste um amigo,

Uma carta o fez chorar.

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar...

A Lua que é viajante

É que nos pode informar.

O soldadinho já volta

Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta,

Está quase mesmo a chegar.

Vem numa caixa de pinho,

Desta vez o soldadinho

Nunca mais se faz ao mar!

Paz a quem partiu!

sinto-me: Luz para quem partiu!
música/livro: " De Capa e Batina" - José Afonso
publicado por São Banza às 12:03
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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

NÓS, "OS EUNUCOS"

Queixamo-nos amargamente deste estado civilizacional que vai de mal a pior e nos está arrastando para a perdição.

Mas,pensemos, a responsabilidade não passará também por nós, pela nossa apatia ?

A perversa ordem mundial que nos sufoca não teria hipótese de sobrevivência se não fosse a massa amorfa, obediente e cuja ausência de princípios lhe permite servir deus e o diabo.

Como considero que José Afonso conseguiu exprimi-lo melhor do que eu, partilho convosco este seu poema:

                                        OS  EUNUCOS

Os eunucos devoram-se a si mesmos:

Não mudam de uniforme, são venais.

E quando os mais são feitos em torresmos,

Defendem os tiranos contra os pais.

Em tudo são verdugos, mais ou menos;

No jardim dos haréns, os principais.

E quando os mais são feitos em torresmos,

Não matam os tiranos, pedem mais.

Suportam toda a dor na calmaria

Da olímpica visão dos samurais.

Havia um dono a mais na satrapia,

Mas foi lançado à cova dos chacais.

Em vénias malabares à luz do dia,

Lambuzam de saliva os maiorais;

E quando os mais são feitos em fatias

Não matam os tiranos pedem mais.

Boa semana!

sinto-me: Esmagada pela engrenagem!
música/livro: "Traz Outro Amigo Também"-José Afonso
publicado por São Banza às 00:49
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Domingo, 14 de Outubro de 2007

SABEDORIA ÍNDIA

Deixo-vos para reflexão de domingo, esta profecia dos índios norte-americanos Cree, uma das inúmeras tribos de indígenas massacradas pelos colonos ditos cristãos e civilizados, aquando da conquista do "Far-West":

"Sólo después de que el último arbol haya sido cortado...

Sólo después de que el último rio haya sido envenenado...

Sólo después de que el último pez haya sido pescado...

Sólo entonces descubrirás que el dinero no se puede comer !"

E são eles os selvagens?!

sinto-me: índia...
música/livro: "Natal dos Simples" - José Afonso
publicado por São Banza às 00:17
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Sábado, 13 de Outubro de 2007

"GUERRA COLONIAL"

ENTRE

CAPIM

E

CATANAS

OS

NOSSOS

AMIGOS

SOFRIAM.

PIOR

AINDA

ERAM

OS

QUE

MORTOS

VIVIAM.

SÃO BANZA - 8/471978

sinto-me: Para quem me lê, flores!
música/livro: Marcha Fúnebre
publicado por São Banza às 00:54
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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

A RIBEIRO DOS SANTOS, UM DOS CAÍDOS

Completam-se hoje trinta e cinco anos sobre o teu assassinato por um dos patifes da P.I.D.E. no interior das instalações do estabelecimento de Ensino Superior que frequentavas em Lisboa, capital deste nosso país. Que nunca mais aprende a levantar a cabeça!

Permite-me explicar que a famigerada P.I.D.E. era a polícia política de que Oliveira Salazar e Marcelo Caetano abundantemente se serviram para perseguir, torturar e assassinar quem discordava da maneira brutal como impunham o seu poder sobre o país e as colónias.

Talvez te surpreenda a clarificação, mas eu explico: nos dias de hoje as pessoas com vinte anos e pouco, isto é, com a idade que tu tinhas quando morreste em luta pela liberdade "preocupam-se" com os resultados futebolísticos, com as marcas da roupa que irão vestir na ida à discoteca, com as tatuagens.

E não têm, sobre política, uma ideia que seja. Aliás, como não têm noção de quanto sofrimento foi necessário para se obter a liberdade e a Democracia que, neste momento, gozam.

"Mea culpa" generalizado e colectivo da minha geração, tenho que o assumir. Não tivemos os devidos cuidados de transição nem activámos os indispensáveis mecanismos de memória.

Como se não bastasse, assiste-se ao descalabro qualitativo da classe política e ao nítido avanço de um clima muito turvo de corrupção .

Além disso, o Governo (P.S.) escorado na sua maioria absoluta no Parlamento está a demonstrar preocupantes sintomas de autoritarismo. Contra estas estranhas atitudes, se levantou ontem na Assembleia da República a voz autorizada e firme de Manuel Alegre, cujos valores e princípios se sobrepõem aos interesses do seu próprio Partido.

E onde quer que te encontres , deves ficar estupefacto e indignado ao tomar conhecimento de que num concurso idiota promovido pela estação pública de televisão(!), Salazar ("o velho abutre") foi considerado o maior português de todos os tempos!

Assim vão os tempos...

Tanto em teu preito como  ao seu autor, porque ambos pagaram elevado preço pela oposição à ditadura, ofereço-te de José Afonso, também ele ligado ao Ensino, um poema de denúncia, revolta  e resistência:

                                      CORO   DOS   CAÍDOS

Cantai, bichos da treva e da aparência,

Na absolvição por incontinência.

Cantai, cantai, no pino do inferno,

Em Janeiro ou em Maio, é sempre cedo.

Cantai, cardumes da guerra e da agonia,

Neste areal onde não nasce o dia!

Cantai, cantai, melancolias serenas,

Como trigo da moda nas verbenas.

Cantai, cantai,guizos doidos dos sinos

Os vossos salmos de embalar meninos.

Cantai, bichos da treva e da opulência

A vossa vil e vã magnificência!

Cantai os vossos tronos e impérios

Sobre os degredos, sobre os cemitérios.

Cantai, cantai ó torpes madrugadas

As clavas, os clarins e as espadas.

Cantai nos matadouros, nas trincheiras,

As armas, os pendões e as bandeiras!

Cantai, cantai,que o ódio já não cansa

Com palavras de amor e de bonança.

Dançai, ó Parcas, vossa negra festa

Sobre a planície em redor que o ar empesta.

Cantai, ó corvos, pela noite fora

Neste areal onde não nasce a aurora!

Que os senhores do Mundo não se iludam...Seja como for, a vitória será nossa contra tudo e contra todos, pois perder uma batalha não implica perder a guerra!

Honra e glória a quem tombou!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sinto-me: Uma flor para ti!
música/livro: "Todas las Voces de Sefarad"
publicado por São Banza às 14:31
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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

CARTÃO DE VISITA

Decidi fazer hoje a minha apresentação, a quem me dá o gosto da sua companhia.

Para o efeito, resolvi utilizar um esplêndido poema de um dos maiores poetas portugueses : Miguel Torga.

                                 LETREIRO

Porque não sei mentir,

Não vos engano:

Nasci subversivo.

A começar por mim

(Meu principal motivo de insatisfação),

Diante de qualquer adoração,

Ajuízo.

Não me sei conformar.

E saio, antes de entrar,

De cada paraíso.

Aí fica o aviso à navegação...

sinto-me: Bem-disposta!
música/livro: José Afonso : " Coro dos Caídos"
publicado por São Banza às 01:43
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

A "POLIEDRO"-PENA, MEU COLEGA

Como começar?...

Como dizer que foi uma agradável surpresa encontrar uma pessoa tão aberta e um docente tão sensível  neste mundo enorme da Internet?...

Como darei parabéns pelo primeiro aniversário de "Poliedro"?...

Como transmitir a emoção de me ver incluída no seu círculo de afectividade, conhecendo-o há tão pouco tempo?

Não o consigo, claro, mas ofereço-lhe ( e também a seu filho Pedro) um poema extraído do mais conhecido livro de KHALIL GIBRAN : "O PROFETA":

                             O ENSINO

Então, um Professor pediu:

- Fala-nos do Ensino.

E ele respondeu:

- Ninguém vos pode revelar nada

que não repouse já meio adormecido

na manhã do vosso conhecimento.

O mestre que caminha à sombra do templo,

entre os discípulos,

não reparte a sua sabedoria,

mas a sua fé e o seu amor.

Se for verdadeiramente sábio,

não vos convidará

a entrar na casa da sabedoria, mas vos levará

aos umbrais do vosso próprio espírito.

O astrónomo pode falar-vos

Da sua compreensão do espaço,

mas não pode dar-vos essa compreensão.

O músico pode cantar para vós

a melodia que enche todo o espaço, mas não pode dar-vos o ouvido

que apreende o ritmo

nem a voz que lhe devolve o eco.

E o que é versado na ciência dos números,

pode falar nas relações dos pesos e medidas,

mas não pode levar-vos até lá.

Porque a visão de uma pessoa

não pode emprestar as suas asas

a outra pessoa.

E assim como cada um de vós

suporta sózinho o conhecimento de Deus,

assim deve estar sózinho

nesse conhecimento de Deus

e na compreensão da Terra.

Caro colega, se fossem contemporâneos diria que Khalil se inspirara em si!

O melhor do mundo para si e para quem estima!

 

sinto-me: Iluminada!
música/livro: Salvatore Adamo -"Êxitos"
publicado por São Banza às 12:13
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

A ERNESTO "CHE" GUEVARA

Escrevo-te a vermelho, porque eras um"rojo", porque vibrantes eram os teus sonhos e ideais, porque vermelho correu o sangue das tuas feridas e da tua morte.

Não partilho a tua ideologia, mas respeito a tua coerência, a tua coragem e o modo como viveste aquilo em que acreditavas.

Mario Teran, sargento do exército da Bolívia, assassinou-te a sangue frio numa sala de aula a mando de Félix Rodriguez, homem de mão da CIA ( aliada do ditador René Barrientos. Como é, aliás, seu modo antigo de fazer). Nem isso lhe ganhou a simpatia dos "democráticos" norte-americanos, pois quando , no ano passado, precisou de ser operado a cataratas foi em Cuba que o salvaram da cegueira!

Quase fizeram de ti um deus, mas não passaste de um Homem. A quem ainda se rende preito e se lembra como referência. Para mim, muito mais digno de admiração do que Fidel Castro, que - muito fardado - discursa durante horas para um povo vivendo muito mal...e não só por culpa do insano bloqueio estado-unidense.

Para tua memória e honra, deixo-te a mensagem cantada por uma grande cantora sul-americana , que - à sua maneira - se empenhou igualmente pela melhoria de vida e pela Democracia no vosso continente : Mercedes de Sosa:

                            SOLO  LE  PIDO  A  DIOS

      Solo le pido a Dios

    Que el dolor no me sea indiferente,

     Que la resseca de la muerte

     No me encuentre vacia y sola

     Sin haber hecho lo suficiente

       Solo le pido a Dios

    Que el engaño no me sea indiferente,

    Si un traidor puede más

    Que uns quantos

    Que essos quantos

     No le olviden facilmente

           Solo le pido a Dios

       Que la guerra no me sea indiferente,

       Es un monstruo grande y pisa fuerte

       Toda la pobre inocência de la gente.

Tu não foste indiferente, Deus graças!

Antes de te deixar, permite que agradeça a Desiderio Benito Hernández a generosa oferta do poema.

Paz à tua alma!

Vida à Democracia e à Igualdade!

sinto-me: PENALIZADA!
música/livro: "EXPRESSION ANDINA" - MALLKU
publicado por São Banza às 12:13
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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007

POBRE ÁFRICA

Por aquele caminho

De alegria escrava

Vai um caminheiro

Com sol nas espáduas

Ganha o seu sustento

De plantar o milho

Aquece-o a chama

Dum poder antigo

Leva o solitário

Sob os pés marcado

Um rasto de sangue

De sangue lavado

Levanta-se o vento

Levanta-se a mágoa

Soltam-se as esporas

Duma antiga chaga

Mas tudo no rosto

De negro nascido

Indica que o negro

É um espectro vivo

Quem lhe dá guarida

Mostra-lhe a pintura

Duma cor que valha

Para a sepultura

Não de mão beijada

Para que não viva

Nele toda a raiva

Dessa dor antiga

Falta ao caminheiro

Dentro d´algibeira

Um grão de semente

D´outra sementeira

O sol vem primeiro

Grande como um sino

Pensa o caminheiro

Que já foi menino.

JOSÉ  AFONSO

Está coberto de razão, João Carlos : José Afonso faz muita falta,tanto para Portugal como para África!

Boa semana!

 

sinto-me: Andarilha
música/livro: "Cantares do Andarilho" - José Afonso
publicado por São Banza às 13:47
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Domingo, 7 de Outubro de 2007

PEDIDO DE DESCULPAS

Peço desculpas pela apresentação do post anterior!!
sinto-me: Correu mal!
publicado por São Banza às 13:29
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