Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

A RIBEIRO DOS SANTOS, UM DOS CAÍDOS

Completam-se hoje trinta e cinco anos sobre o teu assassinato por um dos patifes da P.I.D.E. no interior das instalações do estabelecimento de Ensino Superior que frequentavas em Lisboa, capital deste nosso país. Que nunca mais aprende a levantar a cabeça!

Permite-me explicar que a famigerada P.I.D.E. era a polícia política de que Oliveira Salazar e Marcelo Caetano abundantemente se serviram para perseguir, torturar e assassinar quem discordava da maneira brutal como impunham o seu poder sobre o país e as colónias.

Talvez te surpreenda a clarificação, mas eu explico: nos dias de hoje as pessoas com vinte anos e pouco, isto é, com a idade que tu tinhas quando morreste em luta pela liberdade "preocupam-se" com os resultados futebolísticos, com as marcas da roupa que irão vestir na ida à discoteca, com as tatuagens.

E não têm, sobre política, uma ideia que seja. Aliás, como não têm noção de quanto sofrimento foi necessário para se obter a liberdade e a Democracia que, neste momento, gozam.

"Mea culpa" generalizado e colectivo da minha geração, tenho que o assumir. Não tivemos os devidos cuidados de transição nem activámos os indispensáveis mecanismos de memória.

Como se não bastasse, assiste-se ao descalabro qualitativo da classe política e ao nítido avanço de um clima muito turvo de corrupção .

Além disso, o Governo (P.S.) escorado na sua maioria absoluta no Parlamento está a demonstrar preocupantes sintomas de autoritarismo. Contra estas estranhas atitudes, se levantou ontem na Assembleia da República a voz autorizada e firme de Manuel Alegre, cujos valores e princípios se sobrepõem aos interesses do seu próprio Partido.

E onde quer que te encontres , deves ficar estupefacto e indignado ao tomar conhecimento de que num concurso idiota promovido pela estação pública de televisão(!), Salazar ("o velho abutre") foi considerado o maior português de todos os tempos!

Assim vão os tempos...

Tanto em teu preito como  ao seu autor, porque ambos pagaram elevado preço pela oposição à ditadura, ofereço-te de José Afonso, também ele ligado ao Ensino, um poema de denúncia, revolta  e resistência:

                                      CORO   DOS   CAÍDOS

Cantai, bichos da treva e da aparência,

Na absolvição por incontinência.

Cantai, cantai, no pino do inferno,

Em Janeiro ou em Maio, é sempre cedo.

Cantai, cardumes da guerra e da agonia,

Neste areal onde não nasce o dia!

Cantai, cantai, melancolias serenas,

Como trigo da moda nas verbenas.

Cantai, cantai,guizos doidos dos sinos

Os vossos salmos de embalar meninos.

Cantai, bichos da treva e da opulência

A vossa vil e vã magnificência!

Cantai os vossos tronos e impérios

Sobre os degredos, sobre os cemitérios.

Cantai, cantai ó torpes madrugadas

As clavas, os clarins e as espadas.

Cantai nos matadouros, nas trincheiras,

As armas, os pendões e as bandeiras!

Cantai, cantai,que o ódio já não cansa

Com palavras de amor e de bonança.

Dançai, ó Parcas, vossa negra festa

Sobre a planície em redor que o ar empesta.

Cantai, ó corvos, pela noite fora

Neste areal onde não nasce a aurora!

Que os senhores do Mundo não se iludam...Seja como for, a vitória será nossa contra tudo e contra todos, pois perder uma batalha não implica perder a guerra!

Honra e glória a quem tombou!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sinto-me: Uma flor para ti!
música/livro: "Todas las Voces de Sefarad"
publicado por São Banza às 14:31
link do post | favorito
De Apátrida a 12 de Outubro de 2007 às 18:55
CANTA DE CERCA A MORTE
Se cando a morte pálida me apañe
deixo no mundo un pouco de memoria,
eu quero que o teu nome me acompañe,
se che pode servir dalgunha gloria;
e se labro estes versos co teu lembro
contra a cinza, a corrupción e o lodo,
é que eu non quero crer que aquel setembro
acabase para sempre xa con todo.

Ben sei, ben canté que non o soupese,
que a vida acaba cando o sangue calla,
pero quizá a memoria nos puidese

librar, senon da morte, da mortalla;
e se for, e apos da morte eu brillo,
saiban que eu fun quen son por ser teu fillo.

DARÍO XOHÁN CABANA
A memoria, non pode evitar as mortes, pero si que caían no olvido. Sempre que alguen se lembre, o sentemento continuará vivo é disposto para vencer.
Un abraço



De São Banza a 12 de Outubro de 2007 às 19:43
De novo, a minha gratidão por um poema muito bonito e também por me trazeres ao meu convívio alguém cujo valor desconhecia!
Vem sempre!
Apertas!


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